- Matéria
publicada no Jornal Correio (Bahia) de
28/11/2009
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Ivan Dias Marques | Redação
CORREIO | Fotos: Angeluci Figueiredo
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O sotaque paulistano ainda é carregado. As opiniões,
que sempre foram fortes, também não mudaram. A
fisionomia alterou-se com o tempo, mas o cantor e
compositor Guilherme Arantes, 56, não tem o que se
queixar da vida que leva na Bahia. Num condomínio em
Barra do Jacuípe, Lauro de Freitas, onde recebeu o
CORREIO, ele comanda o estúdio, produtora e pousada
Coaxo do Sapo, onde produz discos e artistas,
Sempre com os cinco filhos (Pedro, Gabriel, Thiago,
Marietta - recém chegada de São Paulo - e Paola) por
perto. “Isso só podia acontecer aqui na Bahia,
porque se fosse em outro lugar não poderia ser assim
de forma tão energética. A gente veio pra cá em
busca de um sonho”, diz o autor de clássicos pop da
música brasileira como Amanhã, Planeta água e Lindo
balão azul.

Cantor recebeu o
CORREIO em seu estúdio em Barras do Jacuípe
DIFERENTE
Faz uma década que Guilherme Arantes resolveu morar
no estado, em Vilas do Atlântico, e tocar o Coaxo do
Sapo e a ONG Instituto Planeta Água (www.planetaagua.net),
que auxilia na preservação ambiental da região da
margem direita do Rio Jacuípe.
Com o título de eleitor transferido para cá
recentemente, o cantor e compositor relembra os
motivos que o trouxeram para o estado. “Essa
fórmula, de morar em São Paulo ou no Rio, cansou. Aí
eu pensei em sair fora e a Bahia apareceu como um
sonho antigo, de ir para um lugar realmente
diferente”, diz.
O músico conta que precisava ampliar as amizades e a
carreira, que, par aele, no final da década de 90,
estava monótona. Curiosamente, o carro onde estava
num dia quebrou próximo ao Rio Jacuípe e Guilherme
viu o anoitecer no local. “Me apaixonei por esse
lugar”, garante.
Para ele, ainda contribuíram para o estabelecimento
na região o crescimento econômico da Bahia na época
e a possibilidade de seus filhos serem criados num
lugar de maior diversidade étnica.

Filho
de Guilherme Arantes produz CD em homenagem ao pai
CARREIRA
O momento atual da carreira de Guilherme é, segundo
ele, de manutenção. “Toco pelo prazer e para buscar
um troco também que é a minha sobrevivência. Mas não
tenho vaidade de estar na parada do sucesso”,
afirma.
Diz que só lança discos quando quer (o último foi
Lótus, de 2007), que não é cobrado por isso e
critica aqueles que acham que os artistas fora do
grande mercado estão ultrapassados: “Temos o direito
de ficar velho e de voltar ao ostracismo”.
No Coaxo do Sapo, Guilherme fez da área verde um
local para a produção de música. Foi tudo projetado
por ele, ex-aluno de arquitetura, sem agressões à
natureza. O estúdio possui equipamentos de última
geração, muitos teclados, piano de cauda, área de
lazer com piscina e bangalôs para os
hóspedes-músicos.
A intenção dele é produzir novos artistas e
lançá-los no mercado. “Sei que tem muita gente por
aí querendo fazer seus trabalhos e a gente pode
ajudar”, diz. Ele acabou de produzir o álbum do
compositor baiano Sérgio Passos e O
Círculo grava seu novo álbum no Coaxo do Sapo.

Estúdio em casa foi
projetado pelo próprio Guilherme Arantes
AXÉ MUSIC Para Guilherme, existe um novo movimento
musical no estado, uma “onda” que ele pretende
pegar: “Hoje, pra minha idade, pega bem participar
de outras coisas, de estar em contato com outras
gerações, enriquece”, revela o músico, que gosta de
estar na função de produtor no que chama de “segunda
fase da vida”.
O compositor acredita que existe espaço para todos
na Bahia e critica o fato de que o estado perdeu a
característica transgressora da época dos Novos
Baianos, de Glauber Rocha ou Raul Seixas. Para
Guilherme Arantes, a axé music gerou artistas
conservadores que, apesar do discurso de
democratização, não querem uma transformação social
na música e desejam sempre se encontrar no Farol no
ano que vem.
“Ou seja, nada vai mudar. Isso é uma coisa que me
cansou”, pontua o artista, que não quer comprar
briga com ninguém, diga-se de passagem. Com a
propriedade de quem veio de fora, ele alerta para o
fato de que o estado conforma-se com o papel que lhe
foi dado por outras partes do país. “A Bahia acaba
aceitando aquilo que o Sudeste impõe para rebaixar a
cultura local e deixar ela com ares caricatos”.
A vontade de Guilherme é ajudar amudar essa
realidade.Ele crê que, no fundo, é só questão de
tempo para que um novo movimento musical e estético,
como o Tropicalismo, surja na Bahia. “Tenho essa
esperança. Vim para cá
acreditando, trouxe minhas coisas, meus sonhos, meus
filhos. A gente quer fazer parte disso. Eu venho
tentando dar de volta à música tudo que ela me deu”,
finaliza.
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