Guilherme, o que o público sorocabano pode
esperar para esse show?
GA: Uma
retrospectiva desses trinta anos de carreira que
completo agora, as músicas mais conhecidas a
algumas escolhidas por questões pessoais, mas os
sucessos estarão todos lá. Será um reencontro
com Sorocaba e dessa vez será em praça pública,
que é mais democrático.
Parece que você está gravando um novo disco no
seu estúdio na Bahia. Fale um pouco sobre isso.
G.A.: Terá baladas com bossa-nova, retomada
da minha parceria com Nelson Motta. Um disco que
pode retomar minha trajetória tortuosa. O disco
dever sair no começo do ano que vem.
Por que tortuosa?
G.A.:
Por causa da mídia, toco piano, teve o apogeu e
o declínio, especialmente nos anos 90. Tem
poucos pianistas, tecladistas, a gente já teve
maior receptividade, o mercado fonográfico ficou
mais comportamental e rítmico. Mas a gente tem
que fazer o que sabe, não podemos nos render aos
apelos. A minha profissão é fazer música, não é
fazer sucesso, mas muita gente não entende. Meu
sonho de criança era fazer música, se faz ou não
sucesso é inexpressivo.
Há quem diga que faltam novos compositores e
intérpretes. Você concorda? Como você analisa o
cenário musical atual?
G.A.: A gente passou por um período em que o
mercado fonográfico migrou entre três mídias
diferentes: vinil, CD e DVD. Com a entrada do
DVD foi o tempo dos shows ao vivo, para poder
migrar ao novo espaço. Assim, o mercado ficou
retraído para novas canções. Temos cantoras
ótimas, a Marisa Monte é uma aberração de
beleza, de qualidade, sou fãzaço dela; surgiu
uma nova geração...sou apaixonado pela Ana
Carolina. Já chorei muito com músicas dela...a
Ceumar é sublime.
Guilherme, já há alguns anos você se mudou para
Bahia, onde tem um projeto ambiental, se eu não
me engano. Fale um pouco sobre isso.
G.A.: Estou
na Bahia há seis anos. Tenho uma pousada com
estúdio, mas não se trata de negócio hoteleiro,
não tenho tino comercial para isso. Essa semana
teve uma cantora americana cantando só músicas
brasileira, e o pianista Jovino Santos, que já
tocou com Hermeto Paschoal, está lá também
tocando no meu piano. Quero que lá se transforme
num point da música popular. Como a pousada está
numa área de preservação ambiental, tenho a ONG
Instituto Planeta Água, com a qual acontecem
ações de alfabetização, aulas de capoeira e de
artesanato. Há parcerias com o Senai, Sebrae, já
replantamos árvores como pau-brasil,
maçaranduba, jacarandá, além das frutíferas como
mangaba, acerola, manga... Quem quiser conhecer
mais pode acessar o site
www.planetaagua.net.
O
fator violência foi o que motivou sua mudança
para a Bahia?
G.A.: Não, não foi. Amo São Paulo; o que
motivou foi a qualidade de lá. É claro que falta
muita coisa, o comércio não é igual ao de São
Paulo, a movimentação do Rio de Janeiro, lá
ficamos mais isolados. Para fazer show tenho que
viajar. Havia um paradigma para quebrar: de que
no Nordeste nada dá certo. Mas esse é o momento
da Bahia. Foi positivo para minha família. Minha
filha de 8 anos estuda numa escola onde há mais
negros, e isso para sua formação e futuro será
bem melhor do que se estivesse numa escola de
classe média da zona sul de São Paulo, onde há
mais brancos. A vida à beira-mar, os passeios,
vivemos subindo em árvores, tem macaquinhos...
Espero viver mais trinta anos, e São Paulo não é
lugar para velhos assim como Londres, Roma...
Como paulistano, como você enxerga o drama da
segurança pública no Estado de São Paulo?
G.A.: A bandidagem, além de muito bem
aparelhada, pega o governo mal estruturado. É
uma luta política, me parece guerra eleitoreira,
e o PCC percebeu a falta de unidade entre o
federal e o estadual e a bandidagem aproveitou.
E
a população é quem paga o pato?
G.A.: A população paga o pato sempre. A
população é que tem que pensar no futuro, São
Paulo não devia votar no Lula. As leis são
anacrônicas, não tem nem legislação para celular
em presídios, o Senado não faz nada, viraram um
bando de lavadeiras. O Brasil está numa crise
institucional perigosíssima, quando se devia
pensar no bem maior que é a população. Isso (se
referindo aos ataques) só pára depois da
eleição.
Politicamente falando, como você avalia o País
nesse momento?
G.A.: Sou apoiador de Heloísa Helena num
primeiro momento, é um figura nova na política e
representa um anseio popular da mulher
brasileira. Tá na hora de termos uma mulher
presidente, pois a mulher não tem a prática de
coronealismo e de conchavos. Devia até ter outra
mulher na política, mas da direita, para
confundir ainda mais o cenário político. Acho
que só a mulher pode mudar esse quadro.
Guilherme, já virou quase uma tradição ter show
seu no aniversário de Sorocaba. Qual sua relação
com a cidade?
G.A.:
Amo Sorocaba. É uma cidade forte, bonita, uma
das melhores do estado de São Paulo. Um
reencontro muito bacana.
Qual música você gosta mais de cantar, e qual
não pode faltar no show?
G.A.: "Descer a
Serra" aí tem sempre que ter; por falar da
Estrada de Ferro Sorocabana. "Amanhã" abre o
show, que é a mais bonita, tenho muito orgulho
dela, e "Planeta Água", que se atualiza nas
escolas. Não esperava esse sucesso todo ao
lançá-la no festival MPB Shell 81.