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Filho de
Elis lança CD com homenagem à mãe, mas diz que puxou ao
pai:
'Não a
conheci'
Matéria publicada em
18/05/2007 às 09h35m - Márcia Abos, O Globo
Online

O cantor
Pedro Mariano, filho de Elis Regina e César Camargo Mariano,
está lançando seu quinto disco e começa, neste fim de
semana, no Citbank Hall em São Paulo, a turnê de lançamento
do trabalho que ele define como um recomeço, depois de dez
anos do lançamento de seu álbum de estréia.
Para a nova fase, o intérprete optou por um retorno ao
básico, com arranjos criados para o quarteto de
instrumentistas que o acompanha tanto no disco quanto ao
vivo, composto por Conrado Goys (violões e guitarras),
Junior Vargas (bateria), Leandro Matsumoto (Baixo) e Marcelo
Elias (teclados e direção musical), que dão às canções o que
Pedro Mariano definiu como uma sonoridade limpa e objetiva.
- Quis fechar um ciclo, começar uma história nova, bem mais
fácil de ser começada pela experiência e a bagagem que eu
carrego. Um recomeço, uma nova fase de um artista em um novo
momento da vida. Quis então voltar para a base, com um
quarteto, sem muita enrolação. Quero a partir deste disco
delinear o que vai acontecer daqui para a frente - disse
Pedro Mariano.
Ele conta que sabia que seria músico desde os dois anos de
idade. Recebeu seu primeiro cachê aos 14 anos, quando
gravava jingles. Como influências, o intérprete ressalta a
black music
norte-americana, primeiro por causa dos pais e depois por
predileção. Para ele, soul, funk, jazz, samba e choro têm
tudo a ver e essa mistura já foi testada e aprovada por sua
mãe, ela mesma, uma funkeira.
Apesar de cantar, trilhando o mesmo caminho profissional da
mãe, do pai, o arranjador e pianista César Camargo Mariano,
Pedro diz ter herdado 99% do que sabe.
- Foi com quem eu conviví minha vida inteira. Foi com ele
que eu aprendi a ser músico e a ser artista. Tudo que eu
aplico hoje na música tem a ver com meu pai. Minha mãe é uma
referência muito forte para mim. Como todos eu a admiro. Meu
pai diz que tenho muitas coisas de parecido com ela, mas não
por causa da convivência. Talvez porque ele dizia que ela
agia assim e eu me identifiquei. Mas meu pai é o vetor de
tudo.
Homenagem a
Elis Regina
"Só Deus é quem sabe" , a quinta faixa do disco "Pedro
Mariano", é uma regravação de uma composição de Guilherme
Arantes. A versão acabou virando uma homenagem a Elis
Regina, que também gravou a mesma canção na década de 1980.
- Se eu colocar qualquer música que minha mãe tenha gravado
tem sempre essa característica de homenagem. Eu gravei a
música porque adoro e sempre quis gravá-la. Nesse caso deu
certo porque a versão original foi criada para um quarteto.
De todo modo, ela também acabou cumprindo o papel de
homenagem, pois o disco está saindo em 2007, quando faz 25
anos da morte de minha mãe. Então, para não perder o hábito
de em todas as datas comemorativas dela eu fazer uma menção,
nessa eu fiz também. Minha vida coincide muito com as datas
comemorativas dela.
O cantor diz de peito aberto que qualquer comparação entre
ele e a mãe como intérpretes lhe será sempre desfavorável.
- Ela é o Pelé. É bem melhor que eu, é única, não tem nada
parecido. É covardia comparar. O meu irmão (João Marcello
Bôscoli) falou uma coisa, que por mais duro que possa ser, é
verdade. Ela morreu no auge, só sobrou coisa boa. Não sobrou
a queda, o envelhecimento do artista, quando todos se
perdem.
Pedro
Mariano tinha 5 para 6 anos quando Elis faleceu.
“
O universo feminino é de uma complexidade
que o homem pode passar 40 mil gerações na Terra e jamais
chegar perto ”
- Se tem uma frustração na minha vida é eu não ter tido o
prazer de conviver e lembrar dela como mãe. Como artista é
impossível não lembrar, ela é muito presente na minha vida.
Mas a minha mãe, a dona Elis, eu não sei quem é. Sobre a
cantora, Elis Regina, eu posso falar.
Há mais diferenças que semelhanças entre ele e a mãe.
- Para mim é sempre um prazer cantar qualquer música do
repertório de minha mãe. Só não canto mais, porque não tem
nada a ver. São momentos diferentes, artistas diferentes. A
carreira da minha mãe foi brilhante, mas não necessariamente
o repertório dela se encaixa perfeitamente no meu.
Pedro ressalta que o universo dos cantores é bem mais
limitado que o das cantoras.
- O universo feminino é de uma complexidade que o homem pode
passar 40 mil gerações na Terra e jamais chegar perto. A
vida do homem é simplista, pode se resumir a um jogo de
futebol.
Então, o repertório de uma cantora permite muito mais coisas
do que o repertório de um intérprete masculino. E isso não
sou eu que estou dizendo, você pode observar qualquer
carreira nacional ou internacional
Além da diferença de gênero há a diferença de época. Pedro
Mariano queixa-se da crítica, que analisa o intérprete da
atualidade com o olhar de 40 anos atrás.
- A época que minha mãe viveu era uma época de luta por
igualdade. A situação política e social que o Brasil vivia
era muito tensa, você tinha que ter muito pulso para ir lá e
falar correndo o risco de ser preso no dia seguinte. Hoje em
dia você pode falar o que quiser e nem por isso as pessoas
falam. Os compositores são contemporâneos às suas épocas e
os de hoje em dia são muito mais
light que os da
época da minha mãe. Por isso minha briga com alguns
críticos. Eles analisam o intérprete de hoje como se
estivessem ouvindo o intérprete de 40 anos atrás. Não dá.
Tem que avaliar o cantor dentro do contexto dele.
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