Final dos anos 1980.
Guilherme Arantes,
no auge do sucesso, gravava um clipe para o
Fantástico. A música, Fio da Navalha,
inspirava um beijo na mocinha, a atriz
Silvia Pfeifer.
Temendo a reação da esposa, a modelo Luiza
Cunha, o cantor ligou para pedir ''permissão''.
A resposta não foi das mais animadoras: ''Se
você beijar ela, não precisa voltar para casa''.
Ficou fora por uma semana, mas voltou com uma
arma infalível: a música Um Dia, um Adeus.
Os versos ''Só você para dar / À minha vida
direção / O tom, a cor / Me fez voltar a ver a
luz'' convenceram Luiza, e a criação que deu
origem ao perdão virou um de seus maiores hits.
Esta e outras histórias ele contou para um
público próximo e seleto no histórico Bar
Brahma, em São Paulo, durante a terceira
apresentação (28/4/2010) da temporada que fará
até junho. ''Não é um recomeço, porque eu
permaneci bastante no mercado de shows'', começa
a definir, quando perguntado sobre a
experiência. ''Aqui a gente vai na contramão do
showbizz, de como ele se organizou na década de
1990, com grandes casas, grandes bilheterias.''
Abrindo o coração
Paulistano da Bela Vista, mas morando há quase
11 anos na Bahia, onde montou estúdio de
gravação, uma pousada, uma produtora (a
Coaxo do Sapo)
e ainda uma ONG, a Planeta Água, o músico vem
semanalmente a São Paulo. Apresenta-se às
quartas-feiras na famosa esquina da ''Ipiranga
com a São João'', sempre com a casa cheia. Ele
conta que, próximo do público, pode abrir o
coração. ''Falo muito da minha vida pessoal, dos
meus filhos.''
Aos 57 anos, há
cinco namora Márcia Gonzalez, 19 anos mais nova.
Guilherme celebra o equilíbrio da relação e acha
que tem a ver com a geração a que ela pertence.
''Nunca me senti tão bem sendo homem, com alguém
que se sente bem sendo mulher'', define,
justificando: ''As mulheres da minha geração
foram muito revoltadas, muito masculinas''.
Em Barra do Jacuípe, município de Camaçari,
próximo a Salvador, ele mora com os cinco
filhos, que têm entre 12 e 30 anos, frutos de
três casamentos diferentes. ''Eu montei uma
família de novo, embora não tenha uma mulher
como chefe'', o que acha excelente. ''Sempre fui
submetido a uma chefia feminina, e isso não
existe mais. Para haver um relacionamento, não
precisa ter chefia''. Sendo mais específico,
exemplifica: ''A mulher é nuclear, é chefe de
galinheiro. É a 'cocorocó'. Atualmente eu aboli
isso. Não tem mais mulher cantando no meu
galinheiro''.
Longe da mídia
Guilherme Arantes é do tempo em que a tristeza
era bem-vinda. ''Estamos em uma época que as
pessoas querem festa. É diferente dos anos 1970,
em que multidões se reuniam para chorar''
(cantarola: ''Amigo é coisa pra se
guardar...'').
Distante dos
holofotes da imprensa, mas não dos palcos (em
fevereiro ele esgotou os 800 lugares do
Auditório Ibirapuera), o cantor explica a
situação: ''Calculo mais que a mídia sumiu das
nossas vidas, do que a gente da mídia. Ela sumiu
de si própria''. Para Guilherme, não há mais
espaço para música na televisão: ''O público que
se acostumou a ver bastante a gente não tem mais
onde ver''.
Com a sabedoria de quem imprimiu na música
popular brasileira refrões bem-arranjados, com
melodias tristes e complexas, como ''Terra,
planeta água'' ou ''Pegar carona nessa cauda de
cometa / Ver a Via-Láctea / Estrada tão
bonita'', ele lamenta a ausência de novos hits.
Um dos motivos para isso? ''Falta de talento
cantando e falta de talento ouvindo.
Rebolation é o hit de hoje.''

Guilherme Arantes se
apresenta no Bar Brahma (Foto: Mariana Albanese)

Pousada Coaxo do
Sapo, em Barra do
Jacuípe (Foto:
Reprodução)