"Quando a tristeza era bem-vinda"
 
  
29 de Abril de 2010
Contigo - Mariana Albanese
 
Guilherme Arantes: quando a tristeza era bem-vinda
Em apresentação no Bar Brahma, o compositor revela histórias de seus amores

 

 

Final dos anos 1980. Guilherme Arantes, no auge do sucesso, gravava um clipe para o Fantástico. A música, Fio da Navalha, inspirava um beijo na mocinha, a atriz Silvia Pfeifer. Temendo a reação da esposa, a modelo Luiza Cunha, o cantor ligou para pedir ''permissão''. A resposta não foi das mais animadoras: ''Se você beijar ela, não precisa voltar para casa''. Ficou fora por uma semana, mas voltou com uma arma infalível: a música Um Dia, um Adeus. Os versos ''Só você para dar / À minha vida direção / O tom, a cor / Me fez voltar a ver a luz'' convenceram Luiza, e a criação que deu origem ao perdão virou um de seus maiores hits.

Esta e outras histórias ele contou para um público próximo e seleto no histórico Bar Brahma, em São Paulo, durante a terceira apresentação (28/4/2010) da temporada que fará até junho. ''Não é um recomeço, porque eu permaneci bastante no mercado de shows'', começa a definir, quando perguntado sobre a experiência. ''Aqui a gente vai na contramão do showbizz, de como ele se organizou na década de 1990, com grandes casas, grandes bilheterias.''

Abrindo o coração
Paulistano da Bela Vista, mas morando há quase 11 anos na Bahia, onde montou estúdio de gravação, uma pousada, uma produtora (a Coaxo do Sapo) e ainda uma ONG, a Planeta Água, o músico vem semanalmente a São Paulo. Apresenta-se às quartas-feiras na famosa esquina da ''Ipiranga com a São João'', sempre com a casa cheia. Ele conta que, próximo do público, pode abrir o coração. ''Falo muito da minha vida pessoal, dos meus filhos.''

Aos 57 anos, há cinco namora Márcia Gonzalez, 19 anos mais nova. Guilherme celebra o equilíbrio da relação e acha que tem a ver com a geração a que ela pertence. ''Nunca me senti tão bem sendo homem, com alguém que se sente bem sendo mulher'', define, justificando: ''As mulheres da minha geração foram muito revoltadas, muito masculinas''.

Em Barra do Jacuípe, município de Camaçari, próximo a Salvador, ele mora com os cinco filhos, que têm entre 12 e 30 anos, frutos de três casamentos diferentes. ''Eu montei uma família de novo, embora não tenha uma mulher como chefe'', o que acha excelente. ''Sempre fui submetido a uma chefia feminina, e isso não existe mais. Para haver um relacionamento, não precisa ter chefia''. Sendo mais específico, exemplifica: ''A mulher é nuclear, é chefe de galinheiro. É a 'cocorocó'. Atualmente eu aboli isso. Não tem mais mulher cantando no meu galinheiro''.

Longe da mídia
Guilherme Arantes é do tempo em que a tristeza era bem-vinda. ''Estamos em uma época que as pessoas querem festa. É diferente dos anos 1970, em que multidões se reuniam para chorar'' (cantarola: ''Amigo é coisa pra se guardar...'').

Distante dos holofotes da imprensa, mas não dos palcos (em fevereiro ele esgotou os 800 lugares do Auditório Ibirapuera), o cantor explica a situação: ''Calculo mais que a mídia sumiu das nossas vidas, do que a gente da mídia. Ela sumiu de si própria''. Para Guilherme, não há mais espaço para música na televisão: ''O público que se acostumou a ver bastante a gente não tem mais onde ver''.

Com a sabedoria de quem imprimiu na música popular brasileira refrões bem-arranjados, com melodias tristes e complexas, como ''Terra, planeta água'' ou ''Pegar carona nessa cauda de cometa / Ver a Via-Láctea / Estrada tão bonita'', ele lamenta a ausência de novos hits. Um dos motivos para isso? ''Falta de talento cantando e falta de talento ouvindo. Rebolation é o hit de hoje.''

Guilherme Arantes se apresenta no Bar Brahma (Foto: Mariana Albanese)

 

       

Pousada Coaxo do Sapo, em Barra do Jacuípe (Foto: Reprodução)

 

 

                                   

 

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