Guilherme Arantes e Fagner gravam juntos  "Um dia um adeus"
 
  

Histórico!

 Raimundo Fagner e Guilherme Arantes gravam "Um dia, Um adeus"
no estúdio de Fagner, no Ceará.

        O cearense Raimundo Fagner (1955) e o paulistano Guilherme Arantes (1953) surgiram quase que simultaneamente na MPB. Ambos pertencem a uma segunda geração deste gênero musical, nascido em meados dos anos 1960, quando Elis Regina jogou os braços pro alto e bradou a canção de Edu Lobo e Vinicius de Moraes - Arrastão - no I Festival da Música Popular Brasileira, realizado pela TV Excelsior de São Paulo. No ano seguinte, em 1966, o vencedor é Geraldo Vandré, com Porta-estandarte, composição em parceria com Fernando Lona.

        Iniciava-se, por meio da era dos festivais, a era da mais tarde chamada MPB – gênero musical dentro do espectro mais amplo da música popular brasileira - inicialmente pelas mãos da  TV Excelsior de São Paulo (1965/1966) e cuja continuidade foi  dada pela TV Record (1966/1967/1968/1969).

        Mas, o forte da TV Excelsior eram os musicais clássicos, os noticiários e as primeiras e históricas telenovelas diárias (1963) a que a TV Tupi dera inicio em 1951. A Excelsior passou o estandarte de baluarte da MPB  para a  Record.  Com o declínio da TV Record, a TV Globo abraça a causa dos festivais, ainda em 1966, antes de transformar-se em rede nacional no início dos anos 1970.   

        Assim, nos festivais que se sucederam, na Globo, a partir de 1966, brilharam Milton Nascimento (Travessia/1967), Nelson Motta (Saveiros/com Dori Caymmi/1966), Chico e Tom (Sabiá/1968), Gutemberg Guarabyra ( Margarida/1967), Ivan Lins (O amor é o meu pais/1971), entre outros.

        No Festival dos Festivais de 1975 – e que comemorava aquele primeiro da TV Excelsior – aparecem para o grande público Djavan (Fato Consumado/1975) e Alceu Valença (Vou danado pra Catende/1975). E no Festival Universitário de 1979, da TV Tupi, Fagner brilha com Quem me levará sou eu – de Dominguinhos e Manduka.

        Nessa época, Fagner vinha de alguns festivais locais – um dos quais venceu com a canção Mucuripe, em parceria com Belchior, e mais tarde regravada por Elis Regina.  

        Naquela mesma época, Guilherme Arantes abandonara o Moto Perpétuo (1974)  - grupo de rock progressivo -  e enveredara pela carreira solo, em 1975, na Som Livre, primeiramente com um compacto simples e depois com um LP em 1976 – cuja canção mais famosa é Meu mundo e nada mais.  

        Mais tarde, Guilherme também participou do mesmo festival que Fagner na TV Tupi, com a canção Estatísticas,  apenas um ano antes da TV pioneira sair do ar definitivamente. No mesmo festival surgiram Kleiton e Kledir, depois de abandonarem a banda Almôndegas (Canção da Meia Noite/Saramandaia/1977). 

        Em 1976, paralelamente à volta dos festivais, as telenovelas da Rede Globo eram campeãs de audiência, “bombavam” - como dizemos hoje - em um modelo televisivo praticamente sem concorrência (apenas a TV Tupi ainda ousava enfrentar a Globo com suas novelas). 

        Naquele momento, simultaneamente, o que mais se ouvia na TV e no rádio eram as canções da trilhas de novela. Entre elas Meu mundo e nada mais (Anjo Mau/1976/Guilherme Arantes), Cuide-se bem (Duas Vidas/1976/Guilherme Arantes), Nuvem passageira (O casarão/1976/Hermes Aquino), Juventude Transviada (Pecado Capital/1976/Luiz Melodia), Noturno (Coração Alado/1976/Fagner), entre outras. 

        Enquanto a MPB crescia, nas suas diversas raízes, e eventualmente ligada à trilha de telenovela, os músicos foram se tornando uma confraria de amigos.

        Em 1991, em uma apresentação no Projeto Via Paulista, no Sesc Pompéia (SP), Guilherme Arantes homenageou a amiga Rita Lee cantando Ovelha Negra, o parceiro Julio Barroso, cantando Perdidos na Selva e cantou Noturno homenageando o amigo Fagner.

        Em abril de 2009, em show no Centro Cultural São Paulo, Guilherme homenageou o compositor Hermes Aquino, cantando Nuvem Passageira e para enorme diversão da platéia imitou o modo inconfundível do magistral Belchior cantar Apenas um rapaz latino-americano. Pouco depois homenageou Fagner ao dizer que assim como Belchior possuía, além de talento único,  almas gentil e caráter ímpar.

        Naquela noite, ficamos sabendo da admiração de Guilherme Arantes por Belchior – que vivia um momento delicado na mídia. Soubemos também que Guilherme vivia sendo confundido com Hermes Aquino na terra do gaúcho e que Fagner era seu fiador desde meados dos anos 1980. Grandes nomes da grande MPB – que se ajudaram mutuamente em seus caminhos paralelos. 

       Mais recentemente, a partir dos anos 1990, quando  percebemos que o modelo musical imposto ao País não privilegiava a qualidade da qual tanto se orgulham os músicos  da MPB, passamos a encará-los como heróis da resistência. Todos eles. Em 2006, Guilherme esteve no mesmo palco com Vander Lee e o amigo de fé Flávio Venturini no Circo Voador (RJ). Pouco antes estivera no Passatempo (SP) com Leila Pinheiro. Em 2007 esteve no HSBC Brasil (SP) com Zeca Baleiro. Recentemente recebeu o amigo Marcelo Jeneci no camarim do Brahma. E assim caminha a MPB tão culta e bela e vilipendiada por gêneros que buscam menor qualidade artística, mas que por vezes aparecem mais na mídia. 

        Em abril de 2011, depois de brilhar no palco do Teatro Nacional ao lado da Orquestra Filarmônica de Brasília, Guilherme voou para Fortaleza, onde, para a surpresa de todos os seus fãs, encontrou-se com Fagner, no estúdio do músico cearense, para gravarem juntos a já clássica Um dia, um adeus (Mandala/1987/Guilherme Arantes).

        Só nos resta pedir licença ao Guilherme para tietar nosso também ídolo Fagner:

         Raimundo Fagner – assim como nosso ídolo - você é igualmente genial.

                                 Aguardamos ansiosamente pelo seu CD.